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Confira o 22º Índice Caliber de Reputação: Dados do segundo trimestre de 2026

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Flávia Martins fala sobre reputação corporativa e diversidade

[Entrevista] Flávia Martins, CEO da Diversidade Sustentável e co-autora do livro “Gestão da Reputação e Competitividade Empresarial”

  • 24/08/2026
  • Patricia Albuquerque
Tempo de leitura: 6 minutos

DEI como pilar de governança e reputação corporativa

Quando as práticas de diversidade, equidade e inclusão são geridas com dados e comunicadas com transparência, elas deixam o terreno do discurso e passam a sustentar a confiança de talentos, consumidores e investidores.

Fundadora e CEO da consultoria Diversidade Sustentável, Flávia Martins trabalha há três décadas nessa fronteira entre DEI e reputação. Jornalista de formação, liderou áreas estratégicas no Museu Afro Brasil, no Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e na TransUnion; além de ter escrito ou colaborado com mais de dez livros – entre eles, “Gestão da Reputação e Competitividade Empresarial”, organizado pela Caliber.

Na avaliação da executiva, DEI deixou de ser projeto isolado de RH e passou a ocupar um lugar central entre indicadores de performance e governança. Ela lembra que organizações inclusivas têm 73% mais probabilidade de impulsionar inovação e até 36% mais chance de superar financeiramente seus concorrentes. Quando o C-level assimila esses números, a comunicação do compromisso com a diversidade passa a ser feita com o mesmo rigor e transparência da divulgação de resultados financeiros.

A executiva afirma também que a omissão tem custo. Em sua leitura, o silêncio diante de questões de inclusão e identidade comunica tanto quanto uma declaração explícita. Por isso, sustenta que lideranças precisam estar preparadas para defender seu posicionamento — ou para justificar de forma consistente a decisão de não se posicionar.

Dados para comprovar transformação cultural genuína

Nossa entrevistada do mês atuou como jurada da categoria ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) no Festival de Criatividade Cannes Lions 2026, onde impacto e resultados comprovados pesaram na avaliação dos cases. Para ela, o mercado distingue cada vez melhor transformação cultural genuína de diversity washing: ao apresentar um trabalho extraordinário e fundamentado, uma organização demonstra ter integrado a responsabilidade social à governança e à estratégia, sinalizando que está preparada para liderar na economia da reputação.

Confira abaixo essa conversa imperdível, em que Flávia explica como transformar compromisso com diversidade em indicadores defensáveis, como comunicá-los sem exagero e como avaliar o risco reputacional de permanecer em silêncio.

“Em pleno 2026, ano eleitoral no Brasil, de avanço da crise climática, de guerras e conflitos no mundo, o silêncio não é porto seguro. É vulnerabilidade estratégica.”

No capítulo que assina no livro “Gestão da Reputação e Competitividade Empresarial”, você defende que DEI deixou de ser um componente ético para se tornar pilar de uma reputação corporativa sólida – o que transfere o tema da responsabilidade social para a estratégia de negócios. Na prática, o que muda na forma como as empresas devem comunicar e gerenciar esse compromisso?

Empresas que alinham seu propósito inclusivo a resultados concretos constroem uma reputação sólida e autêntica, atraindo talentos e consumidores que, cada vez mais, exigem coerência entre o que a marca diz e o que ela efetivamente pratica em suas estruturas de poder. Na prática, a mudança fundamental é que a diversidade, equidade e inclusão (DEI) deixam de ser tratadas como projetos isolados de RH ou filantropia para se tornarem indicadores centrais de performance e governança. 

Quando o C-level compreende que organizações inclusivas têm 73% mais probabilidade de impulsionar inovação e até 36% mais chance de superar financeiramente seus concorrentes, a comunicação desse compromisso passa a compartilhar o rigor e a transparência da divulgação de resultados estratégicos. 

Você propõe que a virada real na agenda DEI acontece quando ela é reposicionada como estratégia de criação de valor, e não como medida corretiva. Essa mudança de narrativa, porém, depende de dados e monitoramento contínuo. Como a gestão baseada em dados pode ajudar empresas a sustentar esse argumento internamente e comunicá-lo de forma crível aos diferentes públicos?

Já faz 20 anos que ouvimos pela primeira vez a frase “dados são o novo petróleo”. De lá para cá, a capacidade de transformar informações em inteligência tornou-se o diferencial entre empresas que lideram e as que ficam para trás. Na agenda de DEI, a gestão baseada em dados substitui o “achismo” por fatos reais e mensuráveis, permitindo decisões rápidas, redução de vieses em processos seletivos e a identificação precisa de distorções, como a iniquidade salarial. Quando uma organização utiliza dados para monitorar taxas de turnover por grupos demográficos ou para estabelecer metas realistas de representatividade na liderança, ela ganha foco estratégico e visão sistêmica, entendendo claramente como a inclusão afeta os resultados gerais do negócio.

Internamente, os dados são uma ferramenta poderosa para engajar lideranças céticas. Comprovam, por exemplo, que equipes plurais e ambientes com alta segurança psicológica registram 50% mais produtividade e 27% menos rotatividade. Externamente, comunicar esses indicadores de forma transparente constrói credibilidade e confiança junto aos stakeholders. Em um cenário onde o mercado distingue facilmente o compromisso genuíno do diversity washing, apresentar evolução baseada em métricas claras é uma forma de sustentar sua reputação corporativa permeada pela diversidade.

No livro, você defende que a omissão corporativa diante de temas como inclusão e identidade deixou de ser neutralidade e passou a ter custo reputacional, e situa 2026 como um marco para essa agenda. Para líderes que ainda resistem a um posicionamento mais claro, qual é o argumento mais concreto de que o silêncio, hoje, é em si uma decisão de reputação?

O argumento mais incisivo é que, na era da transparência radical, a ausência de posicionamento comunica tanto quanto uma declaração explícita. O silêncio corporativo diante de questões de inclusão e identidade é interpretado pelo mercado, talentos e consumidores como uma escolha deliberada pela manutenção do status quo.  Ou, pior, como falta de coragem e governança. Sabemos que se posicionar tem um custo e exige preparo, especialmente em um cenário nacional e global polarizado no qual movimentos, como nos Estados Unidos, restringem práticas de DEI. No entanto, o custo da omissão é invariavelmente maior: a perda de relevância e a desconexão com uma sociedade que alinha seu propósito à transparência das marcas que consome e para as quais trabalha.

Se por um lado o público não aceita mais a neutralidade como escudo… por outro, sabemos que abrir suas iniciativas afirmativas ao mercado pode resultar em avaliações diversas da audiência. Essa escolha demonstra maturidade e compromisso genuíno. Lideranças precisam saber que estarem preparadas para defender seu posicionamento – ou até mesmo para justificar um não posicionamento estratégico – é uma exigência básica de gestão de riscos e reputação. Em pleno 2026, ano eleitoral no Brasil, de avanço da crise climática, de guerras e conflitos no mundo, o silêncio não é porto seguro. É vulnerabilidade estratégica.

O mercado distingue cada vez melhor transformação cultural genuína de diversity washing. Esse olhar esteve no centro do seu trabalho como jurada do Cannes Lions 2026, onde impacto e resultados valeram metade da nota. Como você avalia a maturidade das empresas brasileiras para construir estratégias de ESG e reputação corporativa que resistam a esse escrutínio?

A maturidade das empresas brasileiras está em franca evolução, impulsionada por uma força criativa que historicamente sabe conectar inovação a impacto social. O desempenho do Brasil no Cannes Lions 2026, com a conquista de 62 leões e 3 Grand Prix, reflete essa capacidade de alinhar propósito à autenticidade e ao combate a desigualdades. No entanto, a queda no número de inscrições brasileiras – e globais – nesta edição, devido às novas e rigorosas regras do festival, é um marco importante de autorregulação da indústria criativa, modelo no qual toda a sociedade sai ganhando. A organização agora exige comprovação real da existência e do impacto dos projetos  assim como transparência em relação a qualquer uso de inteligência artificial.

Os cases que premiamos na categoria Sustainable Development Goals Lions são a prova mais concreta disso. O Grand Prix, o 1º da história do Quênia, foi para o “Paid Sick Leave for Cows”, um modelo de licença médica remunerada para vacas em tratamento antibiótico que protege o pequeno produtor rural, garante a integridade da cadeia produtiva e demonstra que inovação transformadora mora na simplicidade. O Leão de Ouro “The Maori Roll Call”, foi um chamado de povos originários da Nova Zelândia à autodeclaração como Maori e ao voto e garantiu a essa comunidade uma cadeira adicional no Parlamento. Já o Ouro “The Period Uniform”, que inova na simplicidade de incluir uma calcinha absorvente na lista de material escolar na Colômbia, gerou 37% de aumento na frequência escolar de meninas. Essas instituições entenderam que, em futuros possíveis, o impacto positivo deixa de ser um diferencial para se tornar o lastro que sustenta a reputação e o valor de mercado de qualquer negócio.

Você voltou do Cannes Lions 2026 com a convicção de que campanhas impecáveis sem mudança real não chegam longe. Para uma executiva que viveu o desafio de engajar inúmeras empresas em torno dos ODS, o que faz um trabalho de comunicação ser, de fato, extraordinário nesse campo, e o que ele revela sobre a maturidade da empresa que o produziu?

Um trabalho de comunicação extraordinário nesse campo é aquele em que a fluidez da narrativa é um reflexo direto da verdade dos resultados. Em Cannes, premiamos cases considerando menos a superprodução do filme e mais o alcance, o impacto e a transformação real na vida das pessoas. É relativamente fácil contar uma história que tem alma e fala por si mesma quando ela é baseada em fatos. O difícil, e cada vez mais insustentável, é criar uma história artificial em torno de uma campanha vazia. Resultados reais geram uma comunicação autêntica, independentemente do tamanho da agência que a produziu. Isso ficou evidente com a forte participação – e sucesso – de agências independentes nesta edição do festival.

Uma instituição madura entende que a criatividade, quando aliada ao propósito, tem o poder de escalar o bem e resolver problemas complexos. Quando uma empresa ou organização apresenta um trabalho extraordinário e fundamentado, ela demonstra que integrou a responsabilidade social à sua governança e estratégia, provando que está preparada para liderar e prosperar na economia da reputação.


 

Referências


Harvard Business Review. “Diversity and Inclusion Study”. Dados sobre inovação e performance financeira em organizações inclusivas.

We Create Space. “DEI Insights & Trends in 2025”. Relatório sobre a importância da gestão baseada em dados e métricas em DEI.

Gallup. “How to Create a Culture of Psychological Safety”. Pesquisa sobre os impactos da segurança psicológica na produtividade e retenção.

Artigo: “Do Changes to DEI Policies Affect Corporate Reputation in the US”. Análise sobre o impacto reputacional das políticas de DEI e o cenário de polarização.

Meio & Mensagem. “Pela primeira vez, Brasil tem campanha mais premiada em Cannes”. Cobertura do desempenho brasileiro e rigor nas avaliações do Cannes Lions 2026.


Esse é um espaço democrático e as opiniões expressadas não refletem necessariamente a posição da Caliber sobre o tema.

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Consultoria internacional especializada em reputação corporativa.

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