Editora de ESG e Diversidade da revista “Exame” e fundadora de iniciativas como Tempo de Mulher e Women On Top, Lia Rizzo é uma das principais referências no debate sobre sustentabilidade, diversidade e governança no Brasil. Com uma trajetória marcada pela análise crítica e pela valorização da coerência entre discurso e prática, Lia reforça que a comunicação corporativa precisa ser cada vez mais consistente, transparente e conectada a resultados concretos.
Na entrevista concedida à Caliber Brasil, ela destaca que a COP30 representa uma oportunidade única para empresas sérias demonstrarem resultados reais, lembrando que estamos em um momento em que já está claro quem apenas discursa e quem, de fato, pratica. Lia também traz um exemplo de boas práticas: a Vivo, que nos últimos anos consolidou uma estratégia de investimento 360º em ESG, marcada pela consistência, diversidade e avanços sustentáveis relevantes.
Ao tratar de riscos reputacionais e do perigo do greenwashing, Lia é direta: abraçar causas exige foco, investimento e intencionalidade, não havendo espaço para ações superficiais. Com a aproximação das novas normas internacionais de reporte de sustentabilidade, ela aponta que o alinhamento entre impacto social e performance financeira tende a se tornar cada vez mais natural e inescapável. Confira o papo na íntegra abaixo.
“Um dos grandes problemas que enfrentamos hoje sobre mudanças climáticas e sustentabilidade é justamente a comunicação disfuncional. Tanto jornalistas quanto empresas precisam ser mais informativos e menos opinativos.”
A COP30, que será realizada no Brasil, promete recolocar a sustentabilidade no centro da agenda pública e empresarial. Na sua visão, qual deve ser o papel da comunicação corporativa nesse momento histórico? Como as empresas podem usar esse contexto para fortalecer sua reputação, indo além do discurso e promovendo impacto real?
Um dos grandes problemas que enfrentamos hoje sobre mudanças climáticas e sustentabilidade é justamente a comunicação disfuncional. Tanto jornalistas quanto empresas precisam ser mais informativos e menos opinativos. Por outro lado, estamos numa era em que está muito claro quem está só no discurso e quem pratica de fato. E aí, considerando COP30 no Brasil, todos (ou muitos) holofotes estão focados no tema. Será uma grande oportunidade para empresas sérias mostrarem resultados concretos – e não somente na conferência.
Você está à frente da editoria ESG da Exame, acompanhando de perto como empresas comunicam e implementam suas práticas ambientais, sociais e de governança. Quais erros de comunicação mais comprometem a reputação de uma empresa nesse campo? E que boas práticas você destacaria como exemplares no contexto brasileiro?
Acho que aqui vale falar de uma empresa que acerta. E para mim, no momento, essa empresa é a Vivo, um excelente exemplo de “walk the talk“. Ao longo dos últimos oito, nove anos, eles atuaram nos três pilares ESG, numa estratégia muito certeira que pode ser resumida em investimento 360º e consistência. E a comunicação mostra isso, seja na foto, literalmente – visto que a companhia avançou demais na representatividade de grupos minorizados em seu quadro de funcionários -, seja nas metas que geralmente alcança muito antes do estipulado. Fiquei muito impressionada quando soube, por exemplo, que a companhia conta com 72 usinas próprias e produz toda energia que consome. Você percebe um senso de responsabilidade real com a sociedade e o planeta, sem perder de vista o resultado financeiro.
Quando falamos em crise climática, é inevitável considerar que seus impactos não são uniformes: mulheres, populações periféricas e comunidades indígenas tendem a ser mais vulnerabilizadas. Como você enxerga a responsabilidade das empresas — especialmente em cargos de liderança — em construir narrativas mais inclusivas nas suas estratégias ESG?
Acredito que aqui valha o que sempre valeu na diversidade, mas ainda avançou pouco ou de forma muito frágil: dar condições reais para as pessoas chegarem e terem chances de permanecer e ascender nas empresas. Não basta apenas abrir vagas – é preciso olhar para os gaps estruturais que grupos minorizados trazem devido às desigualdades históricas. É fundamental criar condições para que se desenvolvam, para que possam competir em pé de igualdade com pares que partiram de pontos de partida completamente diferentes. A inclusão verdadeira exige reconhecer e trabalhar essas diferenças de base.
Você fundou iniciativas como o Tempo de Mulher e o Women On Top, que conectam lideranças femininas poderosas. Como essas redes podem contribuir para transformar o discurso ESG em ação concreta dentro das organizações? E que papel as mulheres líderes vêm desempenhando na construção de reputações sólidas a partir de compromissos com o futuro?
Acho que redes e eventos femininos em geral funcionam como espaços mais seguros para lideranças femininas se abrirem sobre suas particularidades. E para aquelas que estão assistindo, se reconhecerem, enxergarem possibilidades. E é algo mais democrático, por assim dizer, pois mesmo quando empresas têm programas internos de mentoria ou para desenvolvimento de carreira para mulheres, eles não alcançam todo mundo. Já essas redes e eventos são mais passíveis de escala e alcance real.
Agora aqui cabem dois alertas. Primeiro, que muitas dessas redes e grupos femininos às vezes são armadilhas para aquelas que estão desesperadas para se sentirem pertencidas. Em alguns casos, a agenda individual da fundadora ou de quem começou a agregar pode se sobrepor e fazer daquele coletivo um grande oba oba. O segundo aspecto é meio paradoxal: não cabe apenas às mulheres abrir caminhos para outras mulheres. Contudo, quando chegam a posições de poder, elas carregam de fato uma responsabilidade adicional de criar oportunidades para outras.
Muito se fala sobre o valor intangível da reputação no mercado de capitais e no relacionamento com stakeholders. Na sua leitura como socióloga e jornalista, como a agenda ESG pode — ou deve — dialogar com uma visão de economia mais ética, centrada no impacto social e não apenas no retorno financeiro?
Em pouco menos de dois anos, empresas de capital aberto serão obrigadas a divulgar seus relatórios de sustentabilidade conforme normas IFRS. E ainda que seja uma regra para empresas listadas, esse movimento tem ampliado a compreensão de muitas companhias da conexão da agenda ESG e do impacto social com resultados financeiros. Nessas corporações, em que o CFO passará a ser legalmente responsabilizado pelos dados de sustentabilidade que divulgam, essas áreas já estão mais próximas e, portanto, mostrando que o diálogo não apenas é possível, como muito profícuo. Aí mirar uma economia mais ética se torna um caminho mais natural.
Num contexto em que o greenwashing está cada vez mais sob escrutínio, como as empresas podem equilibrar ambição e transparência na comunicação de suas estratégias de sustentabilidade, sem comprometer sua credibilidade e sua reputação?
Certa vez escutei de uma grande especialista em gestão ambiental: nem empresas, nem institutos conseguirão resolver todas as causas. Idealmente, devem escolher uma causa e fazer direito. Porque abraçar uma causa requer foco, investimento, dinheiro na mesa mesmo e intencionalidade. Obviamente, que isso não significa negligenciar todo o resto. Mas se cada setor escolhesse uma causa e a abraçasse com comprometimento real, isso já faria diferença significativa. É melhor fazer uma coisa muito bem feita do que várias pela metade, apenas para marcar presença no discurso ESG.
Esse é um espaço democrático e as opiniões expressadas não refletem necessariamente a posição da Caliber sobre o tema.