Algoritmos e inteligência artificial usada sem critério colaboram para uma sensação de mesmice que representa risco para o capital reputacional
Em resumo: A padronização das marcas, acelerada pela IA generativa, amplia o gap entre branding e reputação corporativa e ameaça a diferenciação das empresas. Quando marcas soam e parecem iguais, perdem a identidade distinta que sustenta a confiança de seus públicos de interesse. Proteger-se exige critério humano na curadoria e no uso da tecnologia.
Existe uma sinergia entre os princípios de branding e de reputação que, em tempos de IA, está cada vez mais relevante: a reputação corporativa depende da percepção de que uma marca ocupa um posicionamento único no mercado. Por conta disso, quando empresas passam a parecer e soar iguais, elas não perdem apenas originalidade. Elas negligenciam o processo por meio do qual o capital reputacional se constrói. Não existe reputação forte sem uma identidade reconhecível e distinta.
Nos últimos anos, pesquisar, planejar e produzir ficou mais fácil. No entanto, está muito mais difícil ser lembrado. A inteligência artificial generativa democratizou a escala: hoje uma empresa levanta um diagnóstico de mercado, formula um posicionamento e gera textos, imagens e vídeos em minutos. O problema é que essa mesma tecnologia, usada sem critério, vem causando nos consumidores uma sensação incômoda: a de já ter visto aquela mensagem ou produto antes, em outro lugar, com outra logo.
O fenômeno, que o mercado internacional chama de sameness, mas dá para traduzir simplesmente por mesmice, não é necessariamente resultado da falta de criatividade, mas efeito do sistema.
Como a mesmice se manifesta nas empresas
A padronização se instala em camadas:
- Na estratégia: setores inteiros chegam ao mesmo diagnóstico de mercado e à mesma tese de futuro, porque partem das mesmas fontes de informação.
- Em produtos e serviços: ofertas de concorrentes diretos se tornam praticamente intercambiáveis — como as chuteiras cor-de-rosa que se repetiram entre seleções na última Copa do Mundo.
- Na comunicação: a execução privilegia as mesmas paletas de cores, o mesmo vocabulário; vemos estéticas, formatos e abordagens semelhantes entre marcas concorrentes.
Qual a origem do fenômeno sameness
A expressão atual do problema é multifatorial. Quando o mesmo ambiente informacional alimenta o planejamento de setores inteiros, com os mesmos relatórios, os mesmos dados e os mesmos cases em circulação, o diagnóstico converge antes que qualquer conteúdo seja produzido. A padronização passa então a ser estrutural.
A jornalista Andrea Janér, fundadora da Oxygen, uma empresa que faz curadoria de tendências, tem se debruçado sobre o tema em suas análises dos principais festivais globais de criatividade e inovação, como South by Southwest e Cannes Lions. Ela observa que os algoritmos das plataformas recompensam e replicam em massa as estéticas e os formatos que já performam bem. O resultado é um ecossistema em que a originalidade é sufocada pelo receio de performar mal, e em que a repetição leva à exaustão cultural.
Janér destaca também a participação da inteligência artificial generativa na configuração do fenômeno. A jornalista adverte que a tecnologia escala e automatiza processos com eficiência, mas produz mesmice massificada quando aplicada sem critério humano. Modelos treinados no que já existe convergem para a resposta mais provável, não para a mais original. A consequência é a pasteurização do mercado.
Por que a mesmice ameaça a reputação corporativa das marcas
A reputação corporativa é construída a partir da consistência entre o que uma marca diz e o que ela efetivamente faz — ou seja, da sinergia entre branding e reputação. Está diretamente ligada à capacidade que uma instituição tem de estabelecer uma identidade própria, expressar um propósito genuíno e gerar impacto concreto. É a partir daí que ela passa a disputar a confiança de seus públicos de interesse.
A mesmice ameaça essa jornada de diferentes formas:
- Elimina a diferenciação — uma marca intercambiável tem muito menos chance de ser lembrada, e os stakeholders sentem que não sabem direito com quem estão se relacionando ou não entendem com clareza seu posicionamento.
- Compromete a conexão emocional — se a marca não é lembrada, ela não pode ser admirada nem defendida.
Gestão de marca e gestão da reputação caminham juntas. A percepção de que uma organização é única, confiável e coerente ao longo do tempo é justamente o que sustenta o capital reputacional. Logo, quando a marca perde nitidez, a reputação perde força.
O caminho da diferenciação de marca é a valorização do elemento humano
Como contratendência, Janér defende o fator humano insubstituível. Num mercado em que máquinas produzem conteúdo padrão em escala, o olhar crítico, a curadoria refinada e o repertório cultural autêntico se tornam os ativos mais valiosos, porque são os únicos capazes de romper a monotonia.
Assim como na comunicação, o elemento humano é fundamental também na hora de gerir a reputação corporativa. Clientes Caliber contam tanto com tecnologia proprietária, que analisa atributos de marca e de reputação, monitora a percepção de stakeholders em tempo real e faz análise com apoio de inteligência artificial, quanto com o suporte de consultores especialistas e seniores. Essa combinação garante conexão, integração, crítica, sensibilidade e julgamento que, juntos, protegem o capital reputacional construído pela empresa e transformam a jornada em diferencial competitivo.
Para líderes de comunicação, marketing e ESG, essa reflexão inspira perguntas importantes:
- Nossa estratégia nasceu de uma leitura própria do negócio, ou do mesmo ambiente de informação que todo concorrente também consome?
- Estamos integrando avanços tecnológicos de forma a aumentar a diferenciação e a competitividade?
- O fator humano está engajado e vem sendo desenvolvido corretamente?
Marcas que respondem bem a essas perguntas constroem capital reputacional sustentável, base da competitividade em qualquer setor. As demais correm o risco de virar ruído: presentes, ativas, mas indistinguíveis.
Sua empresa conseguiria dizer, hoje, o que a torna genuinamente diferente da concorrência? E, mais: ela está monitorando de forma contínua como as mudanças de contexto vêm impactando a percepção que os públicos de interesse têm da instituição?
Perguntas frequentes
É a sensação de que as marcas, produtos, serviços e comunicação estão ficando muito parecidos. O fenômeno é causado pela convergência de diagnósticos de mercado e pelo uso em escala de ferramentas e algoritmos que recompensam o que já performa bem.
Porque modelos treinados no que já existe tendem a convergir para a resposta mais provável, não para a mais original. Usada sem critério humano, a IA generativa escala e automatiza a padronização em vez de combatê-la.
Ela elimina a diferenciação e compromete a conexão emocional com os públicos de interesse. Sem identidade reconhecível, a marca perde a confiança que sustenta o capital reputacional.
Valorizando o fator humano: olhar crítico, curadoria refinada e repertório cultural autêntico na estratégia e na comunicação; combinados com o uso criterioso da tecnologia disponível.
Acompanhar de forma constante como o contexto e a concorrência estão mudando a percepção dos públicos de interesse é o que permite identificar sinais de perda de diferenciação antes que a reputação seja afetada.





